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Cris Guerra: ‘Meu primeiro e mais importante trabalho manual é escrever’
Por Cris Guerra – Caneta e papel. É o que tenho comigo na aeronave, num voo de BH a São Paulo. Todos os prazos já se esgotaram e, mais uma vez, conto com a delicadeza da editora da revista. A agenda lotada, a bateria nas últimas e a lista de tarefas ocupando várias folhas frente e verso, coloco o fone e aproveito o modo avião para finalmente me concentrar.
Alguém canta em inglês no meu ouvido para que eu possa finalmente me escutar. Com seus sinais de wi-fi, a cidade que ficou lá embaixo é ruído demasiado alto para que eu entenda o que eu mesma quero me dizer.
Nunca fui boa em trabalhos manuais. Minha mãe me ensinou a fazer tricô quando eu ainda era criança e minha cabeça fervia a cada vez que errava. Desmanchava a carreira inteira e lá se ia mais uma chance de completar uma peça. Minha perseverança não deu nem para um cachecol.
Com o caderno pautado, finalmente me sinto artesã. Deslizar com a caneta sobre o papel é como bailar livremente no palco do Grande Teatro, patinar no Holliday on Ice, voar com o bando de andorinhas cortando o céu azul com linhas pretas. A caligrafia é uma dança que não se interrompe. Faz círculos no ar, lembrando os movimentos encadeados de crianças em roda. De mãos dadas, as letras sintonizam o que há de mais genuíno na mente que escreve.
Coreografo os movimentos dos
meus dedos, deixando marcas
que ajudam o coração a
entrar no ritmo
Cinco ou seis anos atrás, questionei na então escola do Francisco o fato de ele ainda não estar escrevendo em letra cursiva. Ele se expressava em quadradas maiúsculas de letra de forma, como se sua fala se resumisse a gritos e cartazes de protesto. A coordenadora me disse que escrever em letra cursiva estava em extinção. Que crueldade privar uma criança dessa chance de ser livre.
A fala da educadora me ajudou a colocar um ponto final na trajetória do Francisco naquela escola. Em poucos meses, os manifestos primitivos deram lugar a uma escrita cadenciada, que libertou o menino e seu raciocínio. Valeu a pena insistir na letra cursiva.
Não se trata de andar na linha, mas de manter, com a ajuda da pauta, o coração alinhado com o cérebro. A cursiva segue o curso, o fluxo, a trajetória riscada e arriscada que faz parte da vida. Como meu corpo potencializa as decisões do vestir, minhas mãos são antenas do sentir. Com elas forjo o texto que tocará a alma do leitor – ou a minha própria –, para depois contar com a ajuda dos teclados, onde as mãos ensaiam novos passos.
Não sou bailarina, mas coreografo os movimentos dos meus dedos, deixando marcas que ajudam o coração a entrar no ritmo. Não sei bordar nem costurar, mas teço o afeto com as linhas. Escrever à mão é liberdade suave, fluida e ritmada. Um bom começo, a fala primeira, aquela para a qual o coração será todo ouvidos.
Viajei sem meu computador, mas jamais viajaria sem papel e caneta. Meu primeiro e mais importante trabalho manual é escrever. E isso não deveria ser privilégio dos escritores.
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