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SBP alerta para contaminação por chumbo em crianças
Um terço das crianças do mundo, quase 800 milhões no total, estão intoxicadas por chumbo, uma neurotoxina que pode provocar danos irreparáveis ao cérebro, segundo estudo publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a ONG Pure Earth. O relatório explica que uma em cada três crianças tem níveis de chumbo no sangue iguais ou superiores a 5 microgramas por decilitro, quantidade considerada elevada e prejudicial às crianças. A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a presença de níveis mais baixos de chumbo podem ser ligados a menor inteligência, dificuldades comportamentais e problemas de aprendizagem em crianças.
“As crianças são alvos negligenciados desta exposição crônica, mesmo em doses menores, e é um grupo etário especialmente sensível aos seus efeitos”, afirma a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que lançou neste mês de março um documento sobre os perigos da exposição das crianças à substância.
Brinquedos infantis podem conter tinta à base de chumbo ou chumbo no material do qual é feito. Eles podem ser identificados como brinquedos de plástico de cloreto de polivinila, identificados como “PVC” ou “3”. Cosméticos, giz e giz de cera, tintas, canos de casas antigas, baterias automotivas, na fabricação de vidros e cerâmicas e em processos industriais e medicinais, entre outros, também contêm chumbo, diz o estudo do Unicef.
Embora esse problema ocorra, em especial, em países mais pobres – quase metade dos 800 milhões de crianças com envenenamento por chumbo vive na região do sul da Ásia, trata-se de uma questão de saúde pública mundial. Segundo os autores do estudo do Unicef, a intoxicação por chumbo em crianças vem ocorrendo em uma escala massiva e até então não conhecida. “O chumbo, que causa poucos sintomas no início, provoca uma destruição silenciosa na saúde e no desenvolvimento das crianças, com consequências potencialmente fatais”, disse a diretora executiva do Unicef, Henrietta Fore, em comunicado.
A SBP destaca que crianças menores de 6 anos e particularmente as menores de 3 anos são as mais suscetíveis aos efeitos tóxicos do chumbo, devido a sua maior absorção pelo trato gastrointestinal e pelo fato da barreira hematoencefálica nessa faixa etária ser mais “permeável”, facilitando a penetração de chumbo no Sistema Nervoso Central.
A pediatra Aline Magnino, do Grupo Prontobaby, explica que a carência nutricional de ferro ou cálcio (comum nesta faixa etária) pode aumentar a absorção do chumbo. “As crianças sofrem um maior risco de exposição à substância devido a uma série de fatores: elas costumam ter maior contato com poeiras contaminadas pelo metal ao engatinhar e levar as mãos, objetos e brinquedos à boca”, relata Aline.
A exposição de gestantes ao chumbo também põe em risco o feto, podendo ocasionar comprometimento importante no seu crescimento e desenvolvimento, na visão, na audição e no aprendizado.
A SPB destaca que as intoxicações em crianças são mais comuns em áreas urbanas do que nas rurais, nas mais pobres e nas que vivem em construções antigas. Para identificar o problema, diz Aline, é necessário um exame laboratorial que detecte os níveis séricos do metal.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há níveis séricos seguros de chumbo, uma vez que ele não faz parte dos sistemas orgânicos. Ainda assim, níveis crescentes em populações humanas têm sido detectados desde a revolução industrial. Apesar de uma série de restrições ao uso do chumbo já terem sido feitas, ele ainda é utilizado em grande quantidade na fabricação de manilhas, tintas, cosméticos e baterias. De acordo com alerta da Unicef, seguindo dados da GAHP (Global Alliance on Health and Pollution), o nível sérico médio de chumbo no Brasil é de 2,6mcg%. Porém, em 4.400.000 crianças, os níveis são superiores a 5mcg e em 98.300 excedem 10mcg%, que são níveis considerados neurotóxicos.
Leia também: Brinquedos de plástico: riscos para a saúde infantil e para o meio ambiente
Veja abaixo infográfico (em inglês) do Unicef sobre onde o chumbo pode ser encontrado:
Veja as principais fontes de contaminação, segundo a SBP:
• Ingestão ou inalação de poeira ou lascas de tinta antigas em mau estado de conservação ou durante as atividades de lixamento ou reformas.
• Canos de água com chumbo em residências antigas.
• Enlatados com o metal em sua composição.
• Panelas com chumbo em suas soldas.
• Brinquedos, giz-de-cera e adornos feitos com chumbo.
• Reciclagem de baterias de chumbo de carros
• Medicamentos caseiros e cosméticos
• Móveis reformados
Entre os sintomas típicos da intoxicação estão:
- dores de cabeça
- perda de sensibilidade
- fraqueza
- sabor metálico na boca
- instabilidade na locomoção
- falta de apetite
- vômitos
- prisão de ventre
- cólicas abdominais
O que fazer em casos de intoxicação
“O primeiro e principal tratamento é afastar a criança da fonte e contaminação. Deve-se também realizar avaliação, identificação de deficiências nutricionais (principalmente ferro e cálcio) e suplementação destes, nos casos necessários”, orienta a pediatra. Em casos específicos e sintomáticos, pode haver a necessidade de um tratamento específico com quelantes de chumbo, mas tal indicação deve sempre ser feita por uma equipe multidisciplinar, incluindo um médico toxicologista, diz Aline.
Acesse o estudo do Unicef .
Leia o relatório da Sociedade Brasileira de Pediatria.
Leia também: SBP emite alerta sobre a compra de brinquedos para crianças
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Verônica Fraidenraich
Editora da Canguru News, cobre educação há mais de dez anos e tem interesse especial pelas áreas de educação infantil e desenvolvimento na primeira infância. Tem um filho, Martim, sua paixão e fonte diária de inspiração e aprendizados.
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