Beijinho de mãe sara mesmo? A ciência por trás da “mágica”

Mais do que gesto simbólico, o beijo ativa mecanismos cerebrais que modulam a dor e oferecem conforto emocional. Pediatra explica o que acontece no cérebro infantil e por que validar o choro é tão importante
Beijo de mãe sara? Foto: Freepik

Quem nunca ouviu ou disse “vem cá que a mamãe dá um beijinho que passa”? Pode parecer só um carinho, mas funciona mesmo! E até a ciência já mostrou. Um estudo que avaliou 248 crianças com pequenos machucados em braços e pernas observou que aquelas que receberam um beijo dos pais relataram maior alívio da dor do que crianças submetidas a outras intervenções simbólicas.

Mas por que isso acontece? Segundo a pediatra Veridiana Soares, a explicação começa no próprio funcionamento do sistema nervoso. Quando a criança sofre um machucado, neurônios de dor são ativados na pele e enviam sinais até o sistema nervoso central. “Esses neurônios liberam neurotransmissores, que funcionam como sinais químicos”, explica a pediatra. Existem neurotransmissores que estimulam a transmissão da dor e outros que a inibem. É aí que o superpoder das mães entra em cena.

“O beijo ou o toque podem ativar mecanismos que inibem o neurônio seguinte, como se atrapalhassem a transmissão daquela informação dolorosa”, diz Veridiana. Uma das teorias mais conhecidas para explicar isso é a chamada “teoria do portão” da dor: estímulos táteis competem com o estímulo doloroso e reduzem sua percepção.

A dor não é apenas física. Existem regiões do sistema nervoso central que integram informações sensoriais e emocionais. Isso significa que o contexto afetivo muda a experiência da criança. “O beijo traz conforto emocional e isso modula a dor”, explica a médica. O oposto também é verdadeiro. Uma reação como “bem feito” ou “eu avisei” pode intensificar o choro e a sensação dolorosa, porque adiciona carga emocional negativa ao evento.

Além disso, existe outro mecanismo importante: o foco de atenção. “Quando desviamos o foco da criança para o beijo, o colo ou a conversa, ela passa a prestar menos atenção na dor. Quando você não presta atenção, é como se aquela informação não existisse com tanta intensidade”, afirma.

O efeito é tão incorporado que aparece nas brincadeiras. É comum ver crianças beijando a boneca que “caiu” ou o ursinho que “se machucou”. Elas reproduzem o cuidado que recebem. O gesto vira linguagem de afeto e estratégia de regulação emocional.

Validar fortalece

Mesmo quando o adulto percebe que “não foi nada”, para a criança é, sim, algo significativo. Validar o sentimento, oferecer colo e dar um beijo comunica algo essencial: você é importante e eu estou aqui. Esse tipo de resposta fortalece a autoestima e constrói segurança emocional. A criança aprende que pode contar com alguém e isso a torna mais preparada para enfrentar desafios maiores no futuro.

Beijinho ajuda — mas não substitui cuidado médico

É importante, no entanto, não romantizar tudo. O beijo alivia pequenas dores, mas não substitui avaliação em casos de traumas mais importantes.

Os pais devem procurar atendimento quando houver:

  • Cortes profundos
  • Inchaço importante
  • Suspeita de fratura
  • Dor intensa e persistente

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