Atraso na fala: nem pânico, nem negligência, mas atenção

Especialistas explicam por que a linguagem costuma ser um dos primeiros sinais de transtornos do neurodesenvolvimento e doenças raras e alertam para os riscos de ignorar ou antecipar rótulos
O atraso na fala é, frequentemente, o que leva os pais ao consultório Foto: Freepik

O número de diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento vem crescendo no Brasil. Ao mesmo tempo em que há mais informação e acesso a especialistas, aumentam também as dúvidas das famílias diante de atrasos na fala, dificuldades de aprendizagem e mudanças no comportamento infantil.

Se, por um lado, é positivo entender o quanto antes o que está acontecendo, identificando questões e fazendo as intervenções necessárias, por outro, pode ser que estejamos rotulando essas crianças cedo demais. Entre o alerta necessário e o excesso de diagnósticos, o que vale é o equilíbrio, além de observar a criança e dar atenção aos sinais, buscando uma avaliação profissional, antes de se desesperar ou de simplesmente ignorar, achar que “é normal”, “que vai passar” e “que cada um tem seu tempo”.

A linguagem como primeiro alerta

O atraso na fala é, frequentemente, o que leva os pais ao consultório, embora possa ter múltiplas causas. “Nem todo atraso significa autismo, mas dizer isso não significa que ele possa ser ignorado com a ideia de que ‘cada criança tem seu tempo’. Todo atraso nos mostra que algo no desenvolvimento infantil não está correndo bem”, explica a fonoaudióloga Angelika dos Santos Scheifer, especialista em atraso de fala infantil.

Segundo a profissional observar contato visual, intenção comunicativa e interação social é essencial para diferenciar um atraso simples de um possível Transtorno do Espectro Autista (TEA). Além disso, lembra que existem outros transtornos específicos de linguagem e fala, como TDL (Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem) e TMF (Transtorno Motor da Fala), que podem trazer prejuízos significativos quando não diagnosticados e acompanhados adequadamente.

Diagnóstico não é rótulo, mas acesso à intervenção

Para a neuropsicopedagoga Silvia Kelly Bosi, o fator tempo é determinante. “O cérebro infantil tem janelas importantes de plasticidade. Diagnóstico não é rótulo, é acesso à intervenção. Quanto mais cedo identificamos, maiores são as chances de promover autonomia e qualidade de vida”, afirma. Ou seja, a identificação precoce amplia as possibilidades de desenvolvimento. Quanto antes a criança recebe suporte adequado, maiores são as chances de reduzir impactos futuros na aprendizagem, na socialização e na autonomia.

Além do neurodesenvolvimento

Embora o TEA seja uma das condições mais lembradas, atrasos globais no desenvolvimento também podem estar associados a síndromes genéticas e doenças raras. Daí a importância de uma investigação completa. “Em alguns casos, o atraso de linguagem ou cognitivo é apenas a ponta do iceberg. Identificar a causa genética permite direcionar melhor o tratamento e oferecer informações precisas à família”, diz o médico geneticista Paulo Zattar Ribeiro. Isso pode fazer diferença não apenas no prognóstico da criança, mas também no aconselhamento familiar e no planejamento de cuidados a longo prazo.

Entre a informação e a patologização

Se por um lado há o risco de negligenciar sinais importantes, por outro cresce a preocupação com a patologização da infância. A psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan chama atenção para esse equilíbrio delicado. “Vivemos um momento de maior acesso à informação, mas também de excesso de rótulos. É preciso cuidado para não transformar qualquer dificuldade em diagnóstico, mas também responsabilidade para não negligenciar sinais importantes. O impacto emocional sobre a família é profundo”, alerta.

A era das redes sociais ampliou o acesso a conteúdo sobre desenvolvimento infantil, mas também popularizou autodiagnósticos e comparações constantes, o que pode gerar ansiedade desnecessária ou, ao contrário, minimizar sinais relevantes.

A jornada das famílias

Para Natália Lopes, mãe atípica e fundadora do Voz das Mães, o percurso entre a suspeita e o diagnóstico costuma ser exaustivo. “Entre a suspeita e o diagnóstico existe uma jornada exaustiva. Existe culpa, medo e muita desinformação. A romantização que vemos nas redes sociais não mostra a rotina real de terapias, adaptações e sobrecarga”, conta. O diagnóstico não é o fim da história, mas o início de uma nova fase, que envolve reorganização familiar, busca por terapias e, muitas vezes, enfrentamento de barreiras estruturais.

O caminho do meio

Os especialistas são unânimes ao defender uma abordagem integrada, baseada em evidências científicas e atuação multiprofissional. Pediatra, fonoaudiólogo, psicólogo, neuropsicopedagogo e, quando necessário, geneticista podem atuar em conjunto para compreender o quadro de forma ampla, sem alarmismo e sem inércia. 

Aviso de conteúdo

É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita. O site não se responsabiliza pelas opiniões dos autores deste coletivo.

Veja Também