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Até quando é normal a criança não querer dormir sozinha (e 6 estratégias que podem ajudar)
“Você pode dormir na minha cama?”. Quase todas as noites, escuto essa pergunta, acompanhada de uma carinha fofa e pidona, que lembra aquela do gatinho no filme do Shrek. Eu mesma me lembro da segurança que sentia quando dormia na cama dos meus pais. Além disso, rapidamente penso em como a infância passa rápido e que vai chegar uma hora que ele não vai mais nem cogitar pedir para dormir comigo ou com o pai, assim como já aconteceu com a minha filha mais velha, já adolescente. Então, sem nem pensar duas vezes, ou eu o pai nos aninhamos junto dele – ainda que isso signifique algumas puxadas de cobertor e chutes na madrugada. Ao mesmo tempo, fico pensando: será que é normal? Será que estou prejudicando meu filho? Por mais que seja difícil, às vezes, será que o melhor, pensando no desenvolvimento da autonomia dele, não seria negar o pedido e ajudá-lo a dormir sozinho?
Na maioria das vezes, o pedido para dormir junto não indica um problema. É perfeitamente comum e frequente. A necessidade de companhia na hora de dormir está ligada à construção da segurança emocional e acontece em diferentes fases da infância. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, o sono infantil sofre influência direta do desenvolvimento emocional, do ambiente familiar e da previsibilidade da rotina.
Entre 0 e 3 anos, a necessidade de presença é amplamente esperada. Nessa fase, o cérebro ainda está consolidando a noção de permanência, que é aquela compreensão de que os pais continuam existindo mesmo quando não estão visíveis. Para nós, adultos, parece simples e óbvio, mas o cérebro infantil leva algum tempo para entender isso. A separação física pode gerar insegurança real, e o pedido por colo ou companhia é uma forma de regulação emocional.
Dos 3 aos 6 anos, a imaginação entra em cena. Medo do escuro, de monstros ou de barulhos ganham força porque a criança ainda está desenvolvendo a capacidade de diferenciar fantasia de realidade. O quarto escuro pode parecer, para os pequenos, um pouco ameaçador. Nessa fase, pedir que os pais permaneçam até adormecer também é considerado frequente.
A partir dos 7 anos, muitas crianças já conseguem dormir sozinhas com maior autonomia. Ainda assim, podem surgir regressões, especialmente diante de mudanças importantes, como início da escola, nascimento de um irmão, separação dos pais ou mudança de casa. Alterações na rotina ou eventos emocionais costumam impactar temporariamente o padrão de sono.
O que define se a situação é esperada ou preocupante não é a idade isoladamente, mas a intensidade e o impacto do comportamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça que o sono saudável depende de rotina estável e ambiente seguro, mas também de equilíbrio emocional.
Vale procurar orientação profissional quando a recusa em dormir sozinho vem acompanhada de ansiedade intensa e persistente, crises frequentes que comprometem o sono da criança e da família, sofrimento significativo ou dificuldade generalizada de permanecer sozinho também durante o dia. Nesses casos, pode haver um quadro de ansiedade de separação ou outro fator emocional que mereça avaliação.
Dormir sozinho não é um marco que acontece de uma noite para a outra. Trata-se de uma habilidade que se desenvolve gradualmente, conforme a criança ganha maturidade emocional e confiança.
6 estratégias práticas e gentis para ajudar
- Estabeleça uma rotina previsível: repetir a sequência banho, história e despedida no mesmo horário ajuda o cérebro a se preparar para o sono.
- Crie um ritual fixo de segurança: uma frase carinhosa, um abraço especial ou um “até amanhã” sempre igual transmite previsibilidade.
- Ofereça um objeto de transição: pelúcia, naninha ou algo que simbolize conforto pode ajudar na adaptação.
- Valide o medo sem reforçá-lo: reconheça o sentimento (“eu sei que parece assustador”), mas reafirme a segurança (“você está protegido”).
- Reduza a presença gradualmente: se necessário, diminua o tempo no quarto aos poucos, noite após noite.
- Evite telas antes de dormir: estímulos luminosos e conteúdos agitados dificultam o relaxamento.
Consistência é a palavra-chave. Mudanças bruscas ou respostas diferentes a cada noite tendem a aumentar a insegurança.
Por fim, acho que cada pai ou mãe conhece o seu filho de uma forma única. Então, mais do que um limite de idade, é importante observar para entender se é uma questão que pode requerer ajuda ou se é mais um momento de vínculo.
Às vezes, a correria é tanta durante o dia que, à noite, quando tudo se acalma, vem aquela oportunidade de conexão. Também é importante colocar na conta o fato de estar atrapalhando ou não o sono (não só da criança, mas o seu também). É preciso que seja confortável para todos. Se algo estiver errado, vale tentar mudar a rotina ou buscar orientação profissional.
Por aqui, enquanto a fase de querer mais independência e de ‘revirar os olhos’ não chega, vamos aproveitando um pouquinho mais para abraçar e acalentar nosso caçula, em noites que, um dia, serão só memórias.
Canguru News
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